Caindo na Real

Lentamente a realidade dos fatos econômicos se impõe aos delírios otimistas que pautaram o início do governo Temer. Após o encerramento do processo de impeachment da ex-presidente Dilma Roussef, economistas e empresários passaram a traçar cenários róseos para a economia brasileira. O quadro estabelecido naquele momento ensejava que o pior havia ficado para trás e que a mera transição política seria suficiente para lançar as bases para a recuperação da economia brasileira. As bases desse otimismo foram calçadas por projeções que indicavam queda da inflação e, por consequência, da taxa de juros, o que proporcionariam estímulos à demanda agregada na nossa economia. Esse processo levaria a uma recuperação do crescimento do PIB no final deste ano, com boas perspectivas de crescimento para 2017.

O fenômeno desse delírio otimístico já ocorreu em outros momentos no passado no Brasil. Nesse sentido, fato similar ocorreu com quando o ex-presidente Collor, atravessando um processo de impeachment, abandonou o poder, assumindo em seu lugar o vice presidente, Itamar Franco. As sequelas deixadas pelo Plano Collor, associadas ao caos econômico que o País vivenciava, criou um ambiente político insustentável para o ex-presidente Collor. Quando o vice, Itamar Franco, assumiu, formaram-se expectativas extremamente positivas quanto ao futuro do País (embora muitos desconhecessem completamente a figura que assumia o poder). Essa onda de otimismo se traduziu em um espasmo sobre a economia brasileira, que viveu uma curta lua de mel. No entanto, passados alguns meses, ficou claro para a sociedade que os problemas econômicos ainda persistiam de forma grave, com a inflação em patamares cada vez mais elevados. A grave situação econômica naquele período rapidamente erodiu o otimismo que se formara nos primeiros meses após a saída de Collor do poder. Apenas a implementação do Plano Real, iniciada em fins de 1993, trouxe alguma perspectiva positiva.

A mecânica do otimismo sem grandes fundamentos pode ser adaptada para a realidade atual. Em poucos meses, está ficando patente para a sociedade brasileira que os problemas econômicos estão longe de serem solucionados. Ainda que a qualidade da equipe e da gestão da política econômica do governo Temer seja significativamente superior à da ex-presidente Dilma, ela não tem capacidade ou elementos suficientes para solucionar as distorções e descaso de anos que foram gerados na economia brasileira.

Nesse sentido, está evidente que a recuperação da atividade econômica brasileira está muito aquém do que seria esperado para esse momento: o desemprego continua em alta, a indústria segue patinando e o consumo permanece estagnado. Isso decorre do fato de que não o governo não dispõe de instrumentos concretos para reativar a demanda agregada neste momento: o ajuste fiscal impede qualquer política expansionista, enquanto que a política monetária ainda se debate com a inflação em alta.

De forma similar, o ritmo de alta dos preços permanece acelerado, mantendo o patamar inflacionário em alta. Era esperado que o grau da recessão em curso no País neste momento gerasse uma trajetória de queda mais rápida da inflação, o que não vem ocorrendo. Com isso, a taxa de juros caiu timidamente e corre sério risco de ter seu ciclo de queda abreviado caso novas surpresas inflacionárias ocorram no início do ano. Isso significa que o estímulo monetário, via redução da taxa de juros, será lento, o que limitará o potencial aumentar a demanda agregada por esse canal.

Ao mesmo tempo, a resolução dos problemas estruturais na nossa economia que dependem de aprovação no Congresso ainda segue em ritmo lento. Após um bom início e o avanço da PEC 241, o governo ainda segue em banho maria com a reforma da previdência. Com isso, o atual déficit público segue sem um equacionamento rápido, o que começa a refletir na expectativa dos agentes. Note-se que a questão fiscal ganha contornos mais graves em outras esferas de governo, que têm sofrido duramente com a queda da arrecadação por conta da recessão.

A somatória desses elementos sugere que os problemas da economia brasileira estão longe de serem resolvidos. Essa realidade tem se imposto de forma cada vez mais dura sobre aqueles que se mostraram excessivamente otimistas há alguns meses atrás. De qualquer forma, pelo menos, o direcionamento da política econômica é correto, mas os frutos só serão colhidos mais adiante.




Endereço:
Viaduto Nove de Julho - 1º andar
Bela Vista - CEP: 01050-060
São Paulo - SP
Telefone: (5511) 3291-8735