Uma Boa Notícia

Depois de meses de más notícias no campo econômico, o governo finalmente tem algo a comemorar: a inflação, de fato, passou a apresentar uma trajetória de queda, sinalizando que irá convergir para o centro da meta, se tudo der certo, ainda em 2017.

Uma análise retrospectiva releva que a inflação brasileira tem dado sinais concretos de alta desde 2008 (o ano de 2009 foi uma exceção a esse quadro em função da crise daquele ano). Desde aquele período, até o final do governo Dilma, o Banco Central (BC) se mostrou cada vez mais leniente com patamares de inflação mais elevada, praticando níveis de juros completamente incompatíveis com o restabelecimento da trajetória da inflação rumo ao centro da meta, de 4,5%. Pior que isso, ficou cada vez mais explícito para a sociedade que o BC não mais mirava o centro da meta, e sim o limite superior, de 6,5%. Nesse processo, o Banco Central deslocou, implicitamente, o centro da meta para o limite superior. Os agentes passaram a analisar o comportamento da inflação com base nessa informação, considerando que o BC só reagiria à medida que a inflação sinalizasse para o rompimento desse limite. Nos estertores do governo Dilma, nem isso o Banco Central focava mais, e a política monetária perdeu completamente sua ancoragem.

Obviamente, o resultado disso foi uma paulatina elevação da inflação e das expectativas, que passaram a sinalizar altas recorrentes ante a inação do Banco Central. Com isso, a inflação acumulada em 12 meses foi a mais de 10%, com perspectivas de altas constantes.

Esse fenômeno ocorreu mesmo em um contexto fortemente recessivo: o Brasil atravessa uma das mais severas recessões da sua história, sem paralelo no século XX. Apenas nos últimos meses a inflação começou, de fato, a ceder.

Logicamente, o impacto sobre as expectativas a partir do descontrole da política monetária ao longo do governo Dilma resultou, em parte, nesse fenômeno. A demora da queda da inflação também pode ser associada à indexação residual que ainda persiste na economia brasileira. O Plano Real foi muito bem sucedido em eliminar a indexação praticamente diária na nossa economia, que impunha uma dinâmica onde os preços subiam de forma contínua. No entanto, foram preservados mecanismos de ajuste pela inflação passada em base anual em vários preços e contratos na nossa economia. Esse fenômeno cria uma espécie de rigidez no comportamento da inflação, gerando uma inércia. Nesse contexto, a queda da inflação só pode ocorrer à medida que os preços livres mostrarem um comportamento de queda no seu ritmo de alta. Isso só ocorre com base na queda da demanda, o que tem sido uma realidade ao longo dos últimos dois anos.

De qualquer forma, a gestão atual do Banco Central tem cumprido de forma adequada o seu papel em levar a inflação para o centro da meta. Espera-se que essa convergência ocorra ao longo de 2017, mostrando um resultado muito melhor que o esperado há alguns meses.

Ao mesmo tempo, a queda da inflação abriu espaço para a queda da taxa de juros nos últimos meses de 2016 e no início deste ano. Esta é uma boa notícia, também, para o lado da atividade econômica, que segue extremamente debilitada. As projeções de crescimento para 2017 seguem abaixo de 1% e não está inteiramente descartada uma nova queda do PIB neste ano.

Obviamente, o quadro de estagnação é resultado de um processo de ajuste em curso, com diminuição do grau de endividamento relativo das famílias e das empresas, o que tem imposto limites à expansão da demanda do setor privado, tanto para o consumo quanto para os investimentos produtivos. O governo não tem espaço fiscal para contrapor a retração da demanda do setor privado, uma vez que tem a necessidade de ajustar suas contas. O único instrumento que abre alguma janela de oportunidade de retomada vem da política monetária, cuja flexibilização depende, essencialmente, da queda da inflação.

A somatória desses elementos sugere que, após meses de dificuldades herdadas da gestão anterior, o governo Temer tem espaço agora para respirar um pouco mais, com maior escopo de ação e pelo menos algo a comemorar.




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