TRUMP SINALIZA RECUO EM ACORDOS COMERCIAIS E ABRE NOVA PERSPECTIVA P/ CHINA E BRICS

06/01/2017 16:14:41 - AE NEWS

EXCLUSIVO: TRUMP SINALIZA RECUO EM ACORDOS COMERCIAIS E ABRE NOVA PERSPECTIVA P/ CHINA E BRICS
 
Fonte: Agência Estado/Broadcast
 

São Paulo, 06/01/2017 - O futuro da política comercial dos Estados Unidos virou motivo de debate entre economistas e analistas com a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais. Após conduzir uma campanha prometendo rediscutir ou mesmo eliminar acordos comerciais, além de uma administração mais focada em questões internas do que na política externa, o republicano avisou que não pretende prosseguir com os esforços do governo Barack Obama para a criação da Parceria Transpacífico (TPP) - uma ambiciosa aliança comercial que englobaria 40% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial, mas não incluiria China e as demais economias emergentes que compõem o Brics, grupo que reúne Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul.

A retórica de Trump preocupa por indicar uma possível mudança de postura da maior economia do planeta. Os EUA lideram os esforços pela abertura dos mercados mundiais pelo menos desde a Segunda Guerra Mundial. Analistas alertam que, ao abdicar de papel de promotor da globalização, os EUA podem estar sinalizando, inclusive, mudanças maiores no cenário mundial.

"2017 deveria ser um ano de grandes acordos de comércio, o que não parece ser mais o caso", afirma Philippe Dauba-Pantanacce, economista sênior e analista de política internacional do Standard Chartered, citando não apenas do TPP, mas o crescente ceticismo em relação acordos como a Parceria Transatlântico (TTIP), entre EUA e União Europeia, e o Acordo Abrangente de Comércio (CETA), entre a UE e o Canadá. "Tanto na Europa como nos EUA, o livre comércio está sendo visto por parcelas crescentes do eleitorado como a encarnação de tudo o que deu errado com a globalização, bem como o responsável pela desindustrialização que eles sofreram", diz em relatório a clientes.

O analista acredita que o próximo ano pode marcar a mudança do paradigma geopolítico de uma ordem mundial centrada nos EUA. "O ano de 2017 pode solidificar a crescente tendência para uma ordem multipolar - potencialmente mais instável - em que os EUA reduzem seu envolvimento com o mundo e também a definição do que constitui um interesse de segurança nacional de primeira ordem", diz.

"Se realmente acontecer aquilo que ele [Trump] prometeu, isso significaria o encerramento do modo de operar da política externa mundial que vem desde os anos 1940", afirma o economista Marcos Troyjo, co-diretor do BRICLab, da Universidade de Columbia. "Os EUA são o cordão umbilical do mundo e maior defensor do comércio externo. A visão de mundo que está sendo questionada pelo discurso de Trump na campanha tem impactos grandes do ponto de vista geoestratégico, porque muitos aliados vão experimentar a necessidade de um aumento nos orçamentos de defesa, como Japão e Coreia do Sul no Pacífico, Israel no Oriente Médio, e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) na Europa.

Muitos, no entanto, veem com ceticismo as chances de Trump conseguir implementar tudo que defendeu durante a campanha presidencial, dado que os EUA também são sede das maiores multinacionais do planeta. "Uma coisa é o que ele anuncia, outra coisa é o que é possível fazer", afirma a pesquisadora de comércio exterior d Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), Lia Valls. "Mesmo que os EUA queiram se voltar só pra questão doméstica, a presença deles no mundo é muito grande, então por mais que eles possam querer, isso não deve acontecer, pois vários negócios no mundo inteiro dependem dos EUA e vice-versa", afirma. "Por uma questão eleitoral, ele deve manter sua atenção às políticas que aumentem o emprego em áreas básicas da indústria, mas a atuação dos EUA nos organismos multilaterais continuará presente. Trump não vai abrir mão disso", completa.

China
A China foi um dos principais alvos dos discursos de Trump sobre comércio internacional. Uma eventual retração dos EUA neste campo teria potencial de beneficiar o gigante asiático, que trabalha para dar numa guinada em sentido contrário.

"Enquanto os EUA olham para dentro, a China olha para fora de forma que nunca fez antes. Pela primeira vez, a política externa chinesa é muito ambiciosa, olha para o crescimento nacional com uma visão internacional", afirma Anna Jaguaribe, professora da UFRJ e diretora do Instituto de Estudos Brasil-China (IBRACH), citando a iniciativa da Rota e do Cinturão da Seda, (Obor, na sigla em inglês), que pretende incrementar a influência de Pequim na Ásia, na Europa e na África através de investimentos em infraestrutura e do aumento do comércio. "Em cinco anos, eles criaram instrumentos de financiamento como o Banco dos Brics, o Banco de Investimento em Infraestrutura da Ásia (AIIB), o Fundo da Rota da Seda, entre outros acordos de investimento com países da região. Os investimentos que estão sendo feitos são de ordem muito superior ao que foram feitos no plano Marshall", diz.

Durante a reunião da Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico (Apec, na sigla em inglês), em novembro na capital do Peru, Lima, o presidente da China, Xi Jinping, fez questão de sinalizar a intenção de estreitar os laços comerciais com os países latino-americanos. Além disso, a anunciada desistência de Trump em relação ao TPP fortalece a iniciativa comercial concorrente, a Parceria Regional Econômica Abrangente (RCEP), capitaneada pela própria China. Países como Austrália e Japão, antes entusiastas com o bloco liderado pelos EUA, já consideram embarcar no acordo liderado por Pequim.

Para Yukon Huang, ex-diretor do Banco Mundial para a China e membro sênior do Carnegie Endowment for International Peace, no entanto, seria recomendável que ambos os países perseguissem acordos mais amplos e não apenas bilaterais, uma vez que estes geram distorções na economia mundial. "A China deveria convidar os EUA a fazer parte da RCEP como um gesto bem-intencionado", diz.




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