Economia não é exercício de opinião: modelos econômicos e os limites dos achismos

O debate econômico brasileiro tem sido marcado por afirmações categóricas sobre taxas de juros, dívida pública, inflação e crescimento econômico. Frequentemente, proposições complexas são apresentadas como verdades definitivas, sem que estejam suficientemente explicitados os modelos teóricos, as hipóteses adotadas e as evidências empíricas que lhes dão sustentação.

Prof. Dr. Manuel Enríquez Garcia

Prof. Dr. Manuel Enríquez Garcia

Presidente da OEB

· 9 min de leitura
Compartilhar
Economia não é exercício de opinião: modelos econômicos e os limites dos achismos
Texto

Prof. Dr. Manuel Enríquez Garcia
Professor Sênior da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA-USP). Economista e advogado. Lecionou, durante décadas, as disciplinas de Econometria e Teoria Econômica.

Essa realidade recomenda recuperar uma distinção fundamental: a diferença entre uma análise econômica cientificamente fundamentada e uma opinião sobre o funcionamento da economia.

A Economia, como ciência social, procura explicar o comportamento dos agentes econômicos e identificar relações entre variáveis. Para isso, utiliza modelos teóricos, métodos quantitativos e instrumentos econométricos que permitem formular hipóteses, estimar relações e confrontar proposições com a realidade observada.

Um modelo econômico constitui uma representação simplificada da realidade. Sua construção exige identificar uma variável dependente, cujo comportamento se pretende explicar, e selecionar as variáveis independentes consideradas relevantes para essa explicação.

Considere-se, por exemplo, uma função investimento:

I = f(r, Y, E, R)

Nessa representação, o investimento (I) depende da taxa de juros (r), do nível de atividade econômica (Y), das expectativas empresariais (E) e da percepção de risco (R).

Se desejarmos investigar especificamente a influência da taxa de juros sobre o investimento, devemos analisar a variação de I decorrente de uma alteração em r, mantendo constantes as demais variáveis explicativas.

É precisamente nesse contexto que se aplica a hipótese ceteris paribus, expressão latina que significa mantidas constantes as demais condições.

Trata-se de um princípio metodológico fundamental para a interpretação dos efeitos parciais em modelos econômicos.

Em uma função diferenciável, o efeito marginal da taxa de juros sobre o investimento pode ser representado pela derivada parcial ∂I/∂r, calculada mantendo constantes as demais variáveis incluídas na função.

É importante observar que o princípio ceteris paribus não significa que essas variáveis permaneçam efetivamente constantes na realidade. Significa que, para identificar uma relação específica, o modelo isola analiticamente o efeito de determinada variável explicativa.

Na investigação econométrica, entretanto, essa interpretação exige cuidados adicionais. A identificação de efeitos causais depende de hipóteses sobre exogeneidade, especificação do modelo e possíveis relações simultâneas entre as variáveis.

A validade de uma conclusão econômica depende não apenas da coerência interna do modelo, mas também das hipóteses utilizadas para interpretar suas relações e da qualidade das evidências disponíveis.

Essa distinção torna-se particularmente relevante quando examinamos o debate sobre a taxa de juros e a dívida pública brasileira.

É teoricamente defensável afirmar que taxas de juros elevadas podem desestimular investimentos produtivos e aumentar o custo de financiamento do Estado. Entretanto, concluir que a simples redução dos juros produzirá necessariamente crescimento econômico e sustentabilidade fiscal significa ignorar outras variáveis relevantes.

A trajetória da dívida pública depende da interação entre o custo efetivo do endividamento, o crescimento da economia, o resultado primário das contas públicas e eventuais ajustes patrimoniais e cambiais.

Da mesma forma, os efeitos de uma redução da taxa básica de juros dependem das expectativas inflacionárias, da credibilidade da política monetária, das condições fiscais, do comportamento cambial e da transmissão dos juros ao crédito e à atividade econômica.

Assim, uma relação válida sob determinadas hipóteses não pode ser automaticamente convertida em uma conclusão universal.

A discussão torna-se ainda mais complexa quando diferentes correntes de pensamento econômico apresentam interpretações distintas sobre os mecanismos de transmissão da política monetária.

Existem formulações teóricas que investigam relações positivas entre taxas nominais de juros e inflação em determinados equilíbrios de longo prazo. Outras enfatizam os efeitos contracionistas de elevações dos juros reais sobre a demanda agregada e, consequentemente, sobre a inflação.

Essas abordagens não devem ser confundidas nem consideradas automaticamente incompatíveis. Seus resultados dependem das hipóteses, dos horizontes temporais e dos mecanismos econômicos considerados.

Uma teoria econômica não se torna científica por ser ortodoxa, nem deixa de sê-lo por ser heterodoxa. O critério relevante é seu rigor metodológico.

A experiência brasileira e as lições da história econômica

A história econômica brasileira oferece experiências importantes para compreender a distância que pode existir entre os resultados previstos por determinadas formulações teóricas e aqueles efetivamente observados.

O Plano Cruzado, implementado em 1986, incorporou elementos da interpretação inercial da inflação e procurou interromper a dinâmica de reajustes mediante medidas de desindexação e congelamento de preços e salários.

Inicialmente, verificou-se uma expressiva redução da inflação medida. Entretanto, ao longo de sua execução, surgiram desequilíbrios entre oferta e demanda, distorções de preços relativos e episódios de desabastecimento, seguidos pelo retorno da aceleração inflacionária.

Esses resultados não autorizam concluir que toda a teoria da inflação inercial estivesse equivocada. Demonstram, porém, que a implementação de uma política econômica envolve mecanismos de reação dos agentes, restrições institucionais e condições macroeconômicas que precisam ser considerados.

O Plano Collor, de 1990, constitui outro exemplo relevante. A adoção de medidas extraordinárias de restrição da liquidez financeira, associadas a outras iniciativas de estabilização, provocou efeitos expressivos sobre a atividade econômica, sem produzir uma estabilização duradoura dos preços.

A interpretação desse episódio exige reconhecer tanto os fundamentos teóricos da política adotada quanto suas condições de execução e seus efeitos sobre a confiança, a liquidez e o funcionamento da economia.

Mais recentemente, a chamada Nova Matriz Econômica, associada principalmente ao período de 2011 a 2014, combinou alterações na condução da política monetária, expansão de determinados instrumentos de crédito e incentivos fiscais, além de intervenções em preços administrados.

Seus resultados e sua contribuição para os desequilíbrios macroeconômicos posteriores permanecem objeto de debate na literatura econômica. Uma avaliação rigorosa deve considerar também os choques externos, as condições fiscais, a evolução dos preços relativos e as mudanças de expectativas.

Essas experiências revelam uma lição metodológica: uma política econômica não pode ser avaliada apenas pela intenção de seus formuladores ou pela plausibilidade inicial de suas hipóteses. É necessário examinar os mecanismos de transmissão, os efeitos observados e as explicações alternativas.

Cabe lembrar, igualmente, que contribuições associadas ao pensamento heterodoxo participaram do desenvolvimento da interpretação da inflação inercial e influenciaram o debate intelectual que antecedeu o Plano Real.

A experiência brasileira, portanto, não constitui uma demonstração de superioridade automática de uma escola econômica sobre outra. Constitui, antes, um campo relevante para o confronto entre hipóteses, modelos e evidências.

Modelos econômicos e os limites dos achismos

A diferença entre ciência econômica e achismo não está na orientação ideológica das conclusões, mas no procedimento utilizado para alcançá-las.

Uma opinião pode ser inteligente, persuasiva e até coincidir com acontecimentos posteriormente observados. Isso, entretanto, não a transforma automaticamente em conhecimento científico.

Uma análise econômica consistente deve explicitar suas premissas, identificar os mecanismos de causalidade, reconhecer as limitações do modelo e confrontar suas proposições com evidências empíricas.

Também precisa distinguir correlação de causalidade. A ocorrência simultânea de dois fenômenos não demonstra, por si só, que um deles seja responsável pelo outro.

Nesse contexto, a hipótese ceteris paribus representa um instrumento de disciplina analítica. Ao permitir o isolamento de determinados efeitos, contribui para a compreensão das relações econômicas, mas não dispensa o exame das interdependências existentes no mundo real.

É igualmente necessário reconhecer que um modelo pode ser internamente coerente e, ainda assim, apresentar reduzida capacidade explicativa ou preditiva em determinado contexto histórico.

A passagem da teoria para a formulação de políticas públicas exige, portanto, uma etapa adicional de verificação: avaliar se as hipóteses do modelo são compatíveis com as condições econômicas, institucionais e históricas em que a política será aplicada.

A linguagem acessível no debate público é desejável. Entretanto, simplificar a exposição de uma teoria não significa eliminar suas condições de validade.

O debate econômico se empobrece quando convicções pessoais substituem demonstrações, quando relações condicionais são apresentadas como leis universais e quando a segurança retórica passa a ocupar o lugar da evidência científica.

A Economia não exige unanimidade de pensamento. Exige rigor na construção dos argumentos.

Divergir de uma teoria é legítimo. Propor novos paradigmas é indispensável ao progresso do conhecimento. Mas toda proposição, convencional ou inovadora, deve estar submetida ao mesmo compromisso com a consistência lógica, a investigação empírica e o reconhecimento de suas limitações.

Em síntese, o modelo econômico constitui uma representação condicionada da realidade; o princípio ceteris paribus permite identificar efeitos parciais mediante a manutenção analítica das demais condições; e o achismo surge quando conclusões são apresentadas sem demonstração suficiente de sua validade.

A ciência econômica começa com perguntas, avança pela formulação de hipóteses e se fortalece pelo confronto com os fatos. O achismo, ao contrário, frequentemente começa pela conclusão e procura, posteriormente, argumentos que a confirmem.

É essa diferença que deve orientar o debate econômico contemporâneo.

Prof. Dr. Manuel Enríquez Garcia

Prof. Dr. Manuel Enríquez Garcia

Presidente da OEB

Professor Sênior da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA-USP). Economista e advogado. Lecionou, durante décadas, as disciplinas de Econometria e Teoria Econômica.

✦ Gostou do conteúdo?

Acesse muito mais como Associado OEB

Cursos gratuitos, carteirinha digital, OEB Data e acesso ao Prêmio Economista do Ano.

+3.000

Associados ativos

90+

Anos de história

26

Estados

100%

Digital

Seja um Associado →

100% digital · Acesso imediato após o cadastro