Desemprego cai para 6,1% e atinge menor nível em quatro anos
A taxa de desemprego no Brasil caiu para 6,1% no primeiro trimestre de 2025, segundo a PNAD Contínua do IBGE, atingindo o menor nível em quatro anos. A geração de emprego formal foi destaque, mas a qualidade dos postos de trabalho e a estagnação dos salários reais merecem atenção.
A taxa de desemprego no Brasil recuou para 6,1% no primeiro trimestre de 2025, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) divulgados pelo IBGE. O resultado representa o menor nível desde o primeiro trimestre de 2021 e aponta para um mercado de trabalho em processo de aquecimento sustentado, embora com nuances importantes que merecem análise cuidadosa.
Emprego formal versus informal
O total de pessoas ocupadas chegou a 101,8 milhões no trimestre, novo recorde da série histórica. Desse contingente:
- Empregados com carteira assinada no setor privado: 37,2 milhões (+2,1% em relação ao mesmo período de 2024), refletindo a geração de empregos formais impulsionada pela retomada industrial e pelo setor de serviços;
- Trabalhadores por conta própria: 25,6 milhões, demonstrando que o empreendedorismo por necessidade ainda responde por parcela relevante da ocupação;
- Empregados sem carteira assinada: 12,4 milhões, mostrando queda marginal, sinal positivo de formalização gradual do mercado.
Recorte regional
A melhora não é uniforme entre as regiões brasileiras. O Centro-Oeste e o Sul registram as menores taxas de desemprego, impulsionadas pelo agronegócio e pela indústria. Já o Nordeste mantém a maior taxa regional, em torno de 9,8%, evidenciando desigualdades estruturais que a simples geração de vagas em nível nacional não resolve.
- Sudeste: 5,8%
- Sul: 4,2%
- Centro-Oeste: 4,9%
- Norte: 8,1%
- Nordeste: 9,8%
Setores que mais geraram empregos
O comércio e reparação de veículos liderou a geração de vagas no trimestre, seguido por serviços de informação e comunicação — reflexo da digitalização da economia — e pelo agronegócio, que mantém demanda por trabalhadores rurais diante das safras recordes. A construção civil também contribuiu positivamente, sustentada por programas habitacionais e obras de infraestrutura.
Salário real: a outra face da medalha
Apesar da queda do desemprego, o crescimento do salário real médio permanece modesto. O rendimento médio habitual dos trabalhadores ficou em R$ 3.210 no trimestre, representando alta real de apenas 1,8% em relação ao mesmo período de 2024 — muito abaixo do crescimento do PIB no período.
"O mercado de trabalho brasileiro está em seu melhor momento em anos do ponto de vista quantitativo. O desafio agora é qualitativo: como garantir que a criação de empregos seja acompanhada de aumento real de produtividade e salários?" — Prof. Marcelo Vieira, FGV/OEB
Desemprego estrutural versus cíclico
Parte do desemprego remanescente no Brasil é de natureza estrutural, ligado à incompatibilidade entre as qualificações dos trabalhadores e as vagas disponíveis. Isso é especialmente visível em tecnologia, engenharia e áreas de saúde, onde as empresas reportam dificuldade em preencher posições mesmo com elevado número de desempregados. Programas de qualificação profissional, como o Senai Digital e as iniciativas do MEC, ganham relevância nesse contexto.
Para os próximos trimestres, os analistas esperam estabilização da taxa de desemprego entre 5,8% e 6,5%, dado que o ciclo de criação de empregos tende a perder força na segunda metade do ano, período historicamente mais fraco para admissões líquidas. A trajetória da Selic e seu impacto sobre o crédito e o investimento serão determinantes para o comportamento da demanda por trabalho no horizonte de 12 meses.
Prof. Marcelo Vieira
Professor e Pesquisador, FGV
Professor e pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV), doutor em Desenvolvimento Econômico pela UNICAMP. Autor de quatro livros sobre economia do desenvolvimento, mercado de trabalho e agronegócio brasileiro. Colabora com o think tank da OEB e é referência nacional em análise estrutural da economia brasileira.