Dólar recua para R$ 4,93 com alívio externo e melhora do risco fiscal

O dólar recuou para R$ 4,93 nesta semana, beneficiado por sinais de alívio no cenário externo e por dados melhores do que o esperado no resultado primário do governo federal. A análise técnica e os fundamentos cambiais apontam para uma janela de estabilidade no curto prazo.

Dra. Fernanda Corrêa

Dra. Fernanda Corrêa

Economista Sênior, Mercados & Câmbio

· 6 min de leitura
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Dólar recua para R$ 4,93 com alívio externo e melhora do risco fiscal

A taxa de câmbio BRL/USD registrou queda significativa ao longo desta semana, com o dólar negociado em torno de R$ 4,93 — menor nível desde meados de março de 2025. O recuo de cerca de 2,5% frente ao patamar de R$ 5,06 observado no início do mês reflete uma confluência de fatores externos e internos que aliviaram a pressão sobre o real.

Fatores externos: Fed e commodities

No plano internacional, as falas do presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell, sinalizando que o banco central americano não deve elevar os juros a partir do patamar atual, contribuíram para enfraquecer o dólar globalmente. O índice DXY — que mede a força do dólar frente a uma cesta de moedas — recuou 0,8% na semana, favorecendo o fluxo de capitais para economias emergentes.

  • O petróleo Brent subiu 1,2%, para cerca de US$ 84/barril, beneficiando países exportadores de commodities como o Brasil;
  • O minério de ferro se manteve acima de US$ 110/tonelada em Singapura, sustentando a receita de exportação da Vale;
  • A soja apresentou estabilidade na CBOT, com o câmbio mais favorável melhorando a margem dos exportadores brasileiros.

Fatores internos: resultado primário e risco fiscal

Domesticamente, o Ministério da Fazenda divulgou dados do resultado primário do governo federal referentes ao primeiro quadrimestre de 2025. O superávit primário acumulado superou as expectativas do mercado, reduzindo temporariamente o prêmio de risco cambial associado à trajetória fiscal.

"O dado fiscal veio melhor do que o esperado, mas é preciso cautela. Parte do resultado reflete antecipação de receitas e contenção temporária de despesas. O teste real virá no segundo semestre, quando as pressões de gasto costumam se intensificar." — Dra. Fernanda Corrêa, OEB

A balança comercial também contribuiu positivamente. O saldo comercial acumulado de 2025 supera US$ 25 bilhões, impulsionado pelas exportações do agronegócio e do setor de energia. A robustez do fluxo comercial fornece lastro estrutural para o real, ainda que fluxos financeiros (portfólio e IDE) mantenham volatilidade elevada.

Análise técnica: suportes e resistências

Do ponto de vista técnico, o par USD/BRL encontra suporte relevante na região de R$ 4,88–4,90, onde confluem a média móvel de 200 dias e uma linha de tendência de médio prazo. A resistência imediata está em R$ 5,00–5,05, patamar que o mercado precificou como gatilho de atenção do Banco Central para eventuais intervenções via swap cambial.

O Banco Central do Brasil tem atuado de forma mais cirúrgica no mercado de câmbio, utilizando leilões de swap para reduzir volatilidade excessiva sem defender um nível específico de taxa. A posição vendida do BC em swaps cambiais permanece em torno de US$ 80 bilhões, oferecendo buffer contra depreciações abruptas.

Previsão para as próximas semanas

Os analistas ouvidos pela OEB projetam o dólar operando em um intervalo de R$ 4,85 a R$ 5,10 no curto prazo, dependendo de:

  • Dados de emprego nos EUA (payroll de maio) e suas implicações para a política do Fed;
  • Evolução das negociações em torno do arcabouço fiscal brasileiro;
  • Fluxo de dividendos de empresas estrangeiras instaladas no Brasil, que pressionam o câmbio sazonalmente;
  • Desdobramentos geopolíticos que possam afetar o apetite global por risco.

Para exportadores e importadores, recomenda-se avaliar estratégias de hedge considerando o custo de proteção e a volatilidade implícita, que permanece moderada, mas sensível a surpresas no cenário fiscal doméstico.

Dra. Fernanda Corrêa

Dra. Fernanda Corrêa

Economista Sênior, Mercados & Câmbio

Doutora em Economia pela PUC-Rio, com pesquisa focada em mercados financeiros internacionais e dinâmica cambial. Acumula experiência em mesas de câmbio de grandes bancos brasileiros e atua como economista sênior da OEB, acompanhando os movimentos do real, fluxos de capitais e o cenário externo. É colunista frequente em veículos especializados em finanças.