IPCA de abril sobe 0,43% e acumulado em 12 meses alcança 4,14%

O IPCA de abril de 2025 registrou alta de 0,43%, elevando o acumulado em 12 meses para 4,14%, acima da meta central de 3% estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional. O resultado reflete pressões em alimentos, saúde e habitação.

Dr. Ricardo Almeida

Dr. Ricardo Almeida

Economista-Chefe, OEB

· 4 min de leitura
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IPCA de abril sobe 0,43% e acumulado em 12 meses alcança 4,14%

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de abril de 2025 subiu 0,43%, segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado eleva o acumulado em 12 meses para 4,14%, patamar que supera a meta central de 3% fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) para o ano e se aproxima do limite superior da banda de tolerância de 4,5%.

Composição por grupos de despesa

O resultado de abril foi influenciado por pressões em praticamente todos os grupos de despesas monitorados pelo IBGE. Destacam-se:

  • Alimentação e bebidas (+0,62%): A forte demanda interna, combinada com a valorização do dólar frente ao real e a pressão sobre commodities agrícolas, sustentou a alta de alimentos in natura e processados. Carnes, hortaliças e laticínios foram os vilões do mês.
  • Habitação (+0,51%): O componente de energia elétrica continuou pressionado, reflexo da ativação de bandeiras tarifárias e do crescimento da demanda durante o outono. O aluguel residencial, por sua vez, segue trajetória ascendente influenciado pelo mercado aquecido nas grandes metrópoles.
  • Saúde e cuidados pessoais (+0,71%): Reajustes de planos de saúde autorizados pela ANS no início do ano continuam repercutindo nos índices mensais, mantendo este grupo como um dos principais contribuintes para a inflação acumulada.
  • Transportes (+0,28%): A variação dos preços dos combustíveis foi moderada em abril, após os repasses da alta do petróleo em meses anteriores. Passagens aéreas arrefeceram depois de pico sazonal em março.
  • Educação (+0,05%): Com os reajustes de mensalidades já incorporados em fevereiro e março, o grupo mostrou acomodação em abril.

Comparação com a meta do CMN

A meta de inflação para 2025, definida pelo CMN, é de 3%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo (banda entre 1,5% e 4,5%). Com o acumulado de 12 meses em 4,14%, o IPCA está acima da meta central, mas ainda dentro da banda de tolerância.

"O resultado de abril confirma a persistência inflacionária no Brasil, especialmente no segmento de serviços, que segue rodando acima de 5% ao ano. Isso mantém o Copom em modo de vigilância e reduz a margem para flexibilização monetária no curto prazo." — Dr. Ricardo Almeida, Economista-Chefe da OEB

Inflação de serviços: o componente mais preocupante

Entre os componentes do IPCA, a inflação de serviços é a que mais preocupa o Banco Central. Em abril, o subíndice de serviços avançou 0,52% no mês, mantendo o acumulado anual acima de 5,2%. Diferentemente da inflação de bens, que responde mais rapidamente a câmbio e commodities, a inflação de serviços é estruturalmente mais rígida, pois reflete custos de mão de obra, aluguel comercial e inércia contratual.

O mercado de trabalho aquecido — com taxa de desemprego próxima a 6,1%, mínima histórica recente — sustenta a pressão salarial, que se transmite para os preços de serviços com defasagem de alguns meses. Setores como restaurantes, serviços pessoais e educação privada mantêm reajustes acima da meta.

Perspectivas para os próximos meses

Os economistas ouvidos pela OEB apontam para um cenário de acomodação gradual da inflação ao longo do segundo semestre de 2025, desde que não haja choques adicionais. Os principais fatores a monitorar são:

  • Evolução da taxa de câmbio e seu repasse para os preços domésticos;
  • Comportamento dos preços de energia elétrica e eventuais acionamentos de bandeiras tarifárias;
  • Dinâmica do mercado de trabalho e pressão salarial sobre serviços;
  • Condições climáticas e seu impacto sobre a safra agrícola e preços de alimentos.

O consenso do mercado, conforme o boletim Focus do Banco Central, aponta para um IPCA de aproximadamente 4,3% ao final de 2025, levemente acima do teto da meta. O cenário demanda que o Comitê de Política Monetária (Copom) mantenha postura vigilante, sem descuidar do horizonte de convergência inflacionária para 2026.

Conclusão

O IPCA de abril reforça o diagnóstico de que a desinflação no Brasil é um processo gradual e não-linear. Apesar da Selic em patamar restritivo de 14,5% ao ano, os efeitos da política monetária se transmitem com defasagem, e componentes inerciais como serviços e habitação continuam resistentes. A OEB acompanhará de perto os próximos releases de inflação para avaliar a trajetória e os riscos para o cumprimento da meta em 2025 e 2026.

Dr. Ricardo Almeida

Dr. Ricardo Almeida

Economista-Chefe, OEB

Doutor em Economia pela Universidade de São Paulo (USP), com especialização em política monetária e macroeconomia aplicada. É economista-chefe da Ordem dos Economistas do Brasil, com mais de 20 anos de experiência em análise macroeconômica e assessoria a instituições financeiras. Publicou dezenas de artigos acadêmicos sobre regimes monetários, dinâmica inflacionária e política do Banco Central.