PIB cresceu 2,29% em 2024: expansão sólida, mas riscos fiscais persistem
O PIB brasileiro cresceu 2,29% em 2024, segundo dados do IBGE, sustentado pelo agronegócio, pela expansão dos serviços e pelo consumo das famílias. A análise detalhada revela, no entanto, riscos fiscais e de investimento que podem comprometer o ritmo de crescimento em 2025.
O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresceu 2,29% em 2024, de acordo com os dados das Contas Nacionais Trimestrais divulgadas pelo IBGE. O resultado consolida o terceiro ano consecutivo de expansão acima de 2%, colocando o Brasil em posição relativamente favorável no ranking de crescimento da América Latina, mas a composição do crescimento revela fragilidades que merecem análise aprofundada.
Decomposição setorial do crescimento
Agropecuária (+11,2%)
O setor agropecuário foi, novamente, o grande destaque positivo do ano. A safra de grãos de 2024 atingiu recorde histórico de aproximadamente 320 milhões de toneladas, com soja e milho como protagonistas. O crescimento de dois dígitos do agronegócio contribuiu com cerca de 1,0 ponto percentual para o crescimento total do PIB, funcionando como amortecedor em um ano de juros elevados.
Indústria (+1,9%)
A indústria apresentou recuperação moderada, puxada pela indústria extrativa (petróleo e mineração) e pela construção civil. A indústria de transformação, por sua vez, sofreu com a competição de importados favorecidos pelo câmbio e com o custo elevado do crédito para capital de giro. A produção de veículos e eletrodomésticos mostrou sinais de recuperação no segundo semestre, mas insuficientes para compensar as perdas do primeiro.
Serviços (+2,1%)
O setor de serviços manteve expansão consistente, liderada por tecnologia da informação, comércio e serviços financeiros. O avanço do e-commerce e da economia digital sustentou vagas e faturamento, especialmente em serviços de logística, plataformas de pagamento e telecomunicações.
Componentes da demanda
- Consumo das famílias (+3,8%): Beneficiado pela queda do desemprego, pelo aumento real do salário mínimo e pelo programa de transferência de renda. O crédito ao consumidor também sustentou gastos, embora a um custo elevado;
- Investimento (FBCF -0,7%): A formação bruta de capital fixo recuou em termos reais, refletindo o impacto da Selic elevada sobre os projetos de capital. Essa é a maior preocupação estrutural para o crescimento sustentável;
- Exportações (+4,2%): Impulsionadas pelo agronegócio e pelo petróleo. A demanda chinesa continuou determinante para as exportações brasileiras;
- Gastos do governo (+1,1%): A expansão dos gastos públicos sustentou a demanda, mas ao custo de pressão crescente sobre o resultado primário.
Comparação com pares latino-americanos
O crescimento de 2,29% posiciona o Brasil acima da Argentina (-2,5%), México (+1,2%) e Chile (+2,1%), mas abaixo da Colômbia (+3,4%) e do Paraguai (+4,1%). A média regional foi de aproximadamente 2,0%, contextualizando o resultado brasileiro como em linha, mas não destacado, no conjunto da região.
Riscos para 2025
Os principais riscos para o crescimento em 2025 incluem:
- Manutenção da Selic em patamar elevado por período prolongado, deprimindo o investimento privado;
- Incerteza fiscal e seu impacto sobre a confiança empresarial e o custo do crédito de longo prazo;
- Desaceleração da demanda chinesa por commodities, que afetaria exportações e termos de troca;
- Riscos climáticos para a safra agrícola de 2025, sujeita ao fenômeno La Niña.
O consenso de mercado aponta para crescimento do PIB entre 1,8% e 2,2% em 2025, com revisões para baixo caso a política fiscal não ganhe credibilidade e o custo de capital permaneça elevado. A OEB monitora esses vetores e publicará relatórios trimestrais com atualização das projeções.
Dr. Carlos Mendez
Consultor Econômico
Ex-Secretário de Estado da Fazenda, doutor em Economia Pública pela FGV-SP. Com passagem pelo setor público e pela academia, é hoje consultor econômico independente, especialista em política fiscal, finanças públicas e reformas estruturais. Membro do conselho consultivo da OEB e articulista sobre o desafio fiscal brasileiro.